17 de fevereiro de 2011

Lembro bem que era tarde de um domingo nublado e que tinha uma brisa bem gelada (pelo menos pra mim que não estou acostumada aos ares europeus).

Aliás, eu acho estranho que uma história dessas aconteça em um domingo nublado, você não acha? É que não combina. Mas foi assim.
Tua bicicleta, teu casaco com capuz e o sorriso acanhado mais bonito que eu já vi.
Vou te contar uma coisa mas promete não ficar bravo?
Muitas vezes quando você falava comigo eu não escutava uma palavra do que você dizia.
Toda a minha atenção e meus sentidos estavam nos teus olhos de um castanho infinito, e no meu coração, que não parava de disparar.
A noite que você me carregou pra casa. Fui o caminho inteiro de olho fechado, com a cabeça encostada no teu ombro e sentindo o cheiro do teu cachecol de lã.
O beijo? Não sei, prefiro não falar dessa parte, acho que ficaria clichê demais. Mas foi daquele jeito de filme que a gente suspira no final.
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Eu tenho uma mania esquisita, de sempre perguntar a mim mesma “com quem e onde eu gostaria de estar agora?”.  O lugar eu vario bastante mas a pessoa, (engraçado)... é invariavelmente você.

12 de dezembro de 2010

eu chorei de revolta ou arrependimento. lágrimas tuas, talvez.

hesitei e agora escrevo. não sei se devia, mas preciso.
finjo tanto. penso pouco.
viver é difícil, mas às vezes piora. abri a janela pro ar entrar, pra ver se o vento leva minha angústia.
mas o vento também traz muitas coisas, coisas que um dia eu quis te dar e não dei - por medo, desconfiança, proteção. lembro de uma vez que eu olhei bem na tua pupila e te senti estranho. o distanciamento que eu criei entre nós virou um abismo que eu caio, até agora.
pensei em colocar nossa música pra tocar, mas não. seria pesado...
você tem uma docilidade que me enerva e um temperamento que me incomoda.
(lembra quando combinamos de nos casar naquela igrejinha no quadrado, com um céu que não tem fim?)
não te peço nada. eu só quero que esse caos me transporte pra um lugar mais leve.
tinha tanta coisa pra dizer... mas às vezes o silêncio é uma forma de não desmoronar.



PS:  passa. sempre passa

7 de dezembro de 2010

quinta-feira

Ana tinha um emprego estável, um gato (branco e preto), um namoro conturbado de dez meses, muitos sonhos e poucos planos.
Léo tinha uma carreira promissora, uma almofada de estimação, um namoro acomodado de dois anos, poucos sonhos e nenhum plano.
Um dia cinza de outubro que eles se encontraram pela primeira vez no elevador do prédio.
Ela tinha sido vítima de um furto no centro da cidade e aguardava a vizinha do andar de cima chegar com sua chave reserva, pra que pudesse finalmente entrar em casa.
Ele fez um convite cordial, para que ela aguardasse na casa dele, se quisesse.
Léo não era de convidar desconhecidas para entrar em sua casa. Mas um misto de simpatia e cavalheirismo fez com que insistisse.
Ana não era de entrar na casa de desconhecidos. Mas um misto de curiosidade e cansaço fez com que aceitasse.
A casa tinha um chão quadriculado (branco e preto), um tapete vermelho, enfeites inusitados e um cheiro de cravo.
Ele ofereceu café, ela aceitou uma água.
Porta-retratos revelavam uma família grande que parecia viver longe. Descobriram gostos em comum e compartilharam uns segredos guardados.
Em meia hora, já eram almas gêmeas. Em uma hora, tinham mais afinidade que John e Paul.
Esses encontros inesperados e intensos que acontecem vez ou outra.
Um beijo demorado, a cama, o suor e uns arranhões nas costas dele.
Não foi sexo exatamente. Foi quase. Foi demorado. Foi uma preliminar sem fim. Foi uma irracionalidade descontrolada.
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Léo que observava e desenhava na cabeça cada curva do corpo esguio de Ana, enquanto ela se vestia.
Ana que enquanto colocava a roupa sentia o cheiro da saliva de Léo nos seus seios.
Um olhar de cumplicidade e um abraço de adeus ou até logo.
Um sorriso de Léo ao trancar a porta.
Um suspiro de Ana no elevador.
Um acaso. Acaso do destino, talvez.

8 de novembro de 2010

Nostalgia que me consola. Dos tempos em que eu andava de mochila e bicicleta, frequentava a cantina e o pátio da escola.
Saudade do coração que disparava inocente quando o olhar cruzava despercebido com meu par de olhos verdes prediletos.
Das matinês de domingo de onde a gente saía suado e feliz esperando a segunda-feira chegar.
Os bilhetes trocados com caneta com cheiro de morango e confissões esperançosas.
O imediatismo que a gente vivia, horas em frente ao espelho lamentando o corpo de mulher que ainda não tinha chego (e nunca chegou).
Meus diários cheios de planos de um futuro bom. O meu mundo que cabia quase no meu bairro: a padaria, a locadora, o supermercado, o apartamento dos amigos.
Tardes preguiçosas, manhãs sonolentas. O gosto do cachorro quente com batata palha murcha.
Meu violão.
Não que seja imposível ser feliz quando a gente cresce, só é mais difícil.

10 de agosto de 2010

Isso da troca de olhares, do espasmo, do suor das mãos, do cheiro que fica, dos sorrisos tímidos, das confissões primeiras, da dificuldade de encontrar defeitos, das pernas inquietas, das esperas, das madrugadas, dos abraços quase agressivos, dos beijos quase carnívoros.
Isso das faces que se coram, do pensar pra falar, do sonhar quando ausente, da descoberta.
Isso do querer estar sempre mais perto, do curto espaço entre a despedida e a saudade.
Isso da troca de pedaços de vida, da dúvida, do medo, da ilusão.
Isso do segredo, dos dedos e nucas, do hálito, do amanhecer na partida.
Isso das músicas, das cores, do enlace, da ansiedade que presume desconforto.
Isso da compatibilidade, do inevitável, do jogo, da dose.
Isso do teu eu, do meu nosso.

18 de julho de 2010

vinte e poucos

Me dar conta de que minha casa não é mais a minha casa e de que preciso de um espaço só meu. Onde eu possa molhar toda a pia do banheiro sem ouvir reclamações, onde eu possa colocar os móveis do jeito que que eu quero e se me dar na telha (e o bolso permitir) uma junkie box no meio da sala.
Onde a novela das oito vai ser substituída pelo dvd do Queen. Onde a geladeira estará menos cheia de comida e mais cheia de cerveja. Onde os amigos possam vir e conversar até de madrugada de tudo quanto é assunto proibido.
Onde sim, eu sentirei falta daquela antiga casa da infância mas ficarei feliz pela independência conquistada.
Perceber que o futuro já é presente e que eu preciso correr se não quiser que ele vire um passado sem graça.
Querer grana, não só pra fazer uma viagem ou comprar uma jaqueta da Levis, mas sim pra ter meu espaço oficial no mundo.
Querer reconhecimento profissional e sucesso.
Sentir que o velho molde marido e filhos já não é tão distante e brega quanto há alguns anos atrás (medo!).
Considerar a possibilidade de juntar os trapos com um possível e futuro namorado (será?).
Ter que resolver problemas chatos de adulto e me sentir feliz por conseguir (mesmo que com muita dificuldade).
Querer aprender a cozinhar.
Já saber os "básicos" inglês e espanhol e estar desejando umas aulas de francês.
Se arrepender de não ter se dedicado àquelas aulas de violão de antigamente, mas ainda assim correr atrás do tempo perdido.
Ter saudade da adolescência.
Se desanimar diante do fato de que o metabolismo não é mais o mesmo e de que eu já não posso "encher a cara" de chocolate, pipoca e coca cola sem consequências desagradáveis.
Conversar com pessoas de 17, 18 anos e nunca ter ouvido falar daquela banda que está "bombando".
Ver muitas das minhas convicções questionadas.
Mudar.
E escrever textos de desabafo na noite de um domingo frio.

27 de maio de 2010

Era o abraço desajeitado do reencontro. Era abrir a porta do carro. Era o jantar com vinho italiano. Era colocar a conversa em dia. Era perguntar da família. Era reparar que o cabelo mudou. Era rever qualidades. Era rir das lembranças esquecidas. Era um nhoque com molho bolonhesa. Era ser elogiada. Era procurar outro lugar pra ir. Era parar num bar grã fino. Era beber a última taça do dia. Era o beijo esperado. Era não pagar a conta. Era sair dali e ir pra outro lugar. Era a camiseta emprestada. Era o cheiro que não muda. Era a malícia. Era o quarto. Era um frisson. Era o conhecido desconhecido. Era o descompromisso. Era a ousadia nova. Era o escovar os dentes. Era o adormecer. Era o celular que não foi desligado. Era o silêncio. Era sair na ponta do pé. Era a ligação em seguida.
Não era amor. Era melhor.