28 de julho de 2012


Eu desejo as coisas que estão perdidas para sempre
Finjo desespero para abandonar a realidade
Um dia serei presa
Por excesso de liberdade

15 de novembro de 2011

Janelas abertas pra vida, enfim.
Respiro você e minha alma se escancara.
Encaro teu adormecer, dedos e nós, de mãos dadas pro sonho.
Uma taça de vinho amanhecido. Não tem café da manhã.
Eu não me importo.
Falamos sobre nossas bicicletas e nossos planos de morar na cidade, ou fora dela.
Não sou a mesma. Há tanto sol em mim.
Na estrada, nossos pés descalços e nossos ombros unidos.
No coração, uma certeza: já não há razão pra caminhar só...

3 de agosto de 2011

agosto

Clara acordou cinza, assim como o céu que escorria pela sua janela.
Lavou o rosto, observou suas olheiras que estavam cada dia maiores e entrou no chuveiro.
O dia frio, a água morna e uns pensamentos vagos pelo ralo.
Saiu do banho e voltou aos pijamas, se recusou a sair de casa estando tudo assim, tão cinza, por dentro e por fora.
Uma caneca de água fervente no microondas, um sachê de chá preto, sem açúcar. Engoliu amargo, queimou a garganta.
Já não encontrava sentido no que antes preenchia. O trabalho estava repetitivo, tentativas de amor nunca foram tão burocráticas.
Um vazio.
Desses que nem poesia cura.
Pousou os olhos num porta retrato apoiado em uma de suas prateleiras desorganizadas.
Ela, então com sete anos, sorria de pés descalços.
Não ficou nostálgica, nem triste, nem melancólica, não.
Permaneceu cinza, deitou e adormeceu novamente, com a esperança de despertar mais viva.



4 de abril de 2011

(des)encontro

A manhã de um dia que presumia chuva no final.
O trânsito livre e a porta aberta. A saleta de espera branca era colorida por livros de Pessoa, Joyce, Eco, Lacan e Jung. Uma versão não original de What a Wonderful World preenchendo o ar de uma melancolia boa.
Eu de tênis, calças largas, uma camiseta gasta e um coque desarrumado no alto da cabeça.
Ela de sapato bico fino, tailleur, óculos escuros e enormes que se destacavam ainda mais na sua pele clara. Os cabelos bem escovados e o nariz um pouco vermelho denunciando lágrimas recentes.
Eu estava curvada sobre o prefácio de um livro de contos ingleses tirado da estante há alguns minutos atrás.
Nossos olhos se encontraram por acaso e trocamos alguns segundos de um silêncio constrangedor.
Sentou-se ao meu lado, seus dedos se contorciam, os joelhos juntavam e separavam numa dança ansiosa e doentia.
O som de números discados e sua voz embargada de choro que dizia pra alguém do outro lado da linha que o sítio podia sim ser vendido e que os papéis seriam assinados.
Um diálogo confuso, curto, pausado e dolorido.
Ela acabou dizendo “a gente sempre se desencontrou...” e desligou.
Tirou os óculos, mas não fez questão de enxugar as lágrimas que corriam pesadas e lentas, quase que no ritmo da música.
Nos olhamos novamente mas dessa vez não foi por acaso e nem foi constrangedor. Foi cúmplice. Ela quis esboçar um sorriso mas não o fez. Eu quis dizer algo e não disse.
A porta abriu e ela entrou, provavelmente ao encontro do divã preto e dos lenços de papel.
Eu continuei na espera ao som dos últimos versos da música... And I think to myself... what a wonderful world. Yes, I think to myself… what a wonderful world.


17 de fevereiro de 2011

Lembro bem que era tarde de um domingo nublado e que tinha uma brisa bem gelada (pelo menos pra mim que não estou acostumada aos ares europeus).

Aliás, eu acho estranho que uma história dessas aconteça em um domingo nublado, você não acha? É que não combina. Mas foi assim.
Tua bicicleta, teu casaco com capuz e o sorriso acanhado mais bonito que eu já vi.
Vou te contar uma coisa mas promete não ficar bravo?
Muitas vezes quando você falava comigo eu não escutava uma palavra do que você dizia.
Toda a minha atenção e meus sentidos estavam nos teus olhos de um castanho infinito, e no meu coração, que não parava de disparar.
A noite que você me carregou pra casa. Fui o caminho inteiro de olho fechado, com a cabeça encostada no teu ombro e sentindo o cheiro do teu cachecol de lã.
O beijo? Não sei, prefiro não falar dessa parte, acho que ficaria clichê demais. Mas foi daquele jeito de filme que a gente suspira no final.
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Eu tenho uma mania esquisita, de sempre perguntar a mim mesma “com quem e onde eu gostaria de estar agora?”.  O lugar eu vario bastante mas a pessoa, (engraçado)... é invariavelmente você.

12 de dezembro de 2010

eu chorei de revolta ou arrependimento. lágrimas tuas, talvez.

hesitei e agora escrevo. não sei se devia, mas preciso.
finjo tanto. penso pouco.
viver é difícil, mas às vezes piora. abri a janela pro ar entrar, pra ver se o vento leva minha angústia.
mas o vento também traz muitas coisas, coisas que um dia eu quis te dar e não dei - por medo, desconfiança, proteção. lembro de uma vez que eu olhei bem na tua pupila e te senti estranho. o distanciamento que eu criei entre nós virou um abismo que eu caio, até agora.
pensei em colocar nossa música pra tocar, mas não. seria pesado...
você tem uma docilidade que me enerva e um temperamento que me incomoda.
(lembra quando combinamos de nos casar naquela igrejinha no quadrado, com um céu que não tem fim?)
não te peço nada. eu só quero que esse caos me transporte pra um lugar mais leve.
tinha tanta coisa pra dizer... mas às vezes o silêncio é uma forma de não desmoronar.



PS:  passa. sempre passa

7 de dezembro de 2010

quinta-feira

Ana tinha um emprego estável, um gato (branco e preto), um namoro conturbado de dez meses, muitos sonhos e poucos planos.
Léo tinha uma carreira promissora, uma almofada de estimação, um namoro acomodado de dois anos, poucos sonhos e nenhum plano.
Um dia cinza de outubro que eles se encontraram pela primeira vez no elevador do prédio.
Ela tinha sido vítima de um furto no centro da cidade e aguardava a vizinha do andar de cima chegar com sua chave reserva, pra que pudesse finalmente entrar em casa.
Ele fez um convite cordial, para que ela aguardasse na casa dele, se quisesse.
Léo não era de convidar desconhecidas para entrar em sua casa. Mas um misto de simpatia e cavalheirismo fez com que insistisse.
Ana não era de entrar na casa de desconhecidos. Mas um misto de curiosidade e cansaço fez com que aceitasse.
A casa tinha um chão quadriculado (branco e preto), um tapete vermelho, enfeites inusitados e um cheiro de cravo.
Ele ofereceu café, ela aceitou uma água.
Porta-retratos revelavam uma família grande que parecia viver longe. Descobriram gostos em comum e compartilharam uns segredos guardados.
Em meia hora, já eram almas gêmeas. Em uma hora, tinham mais afinidade que John e Paul.
Esses encontros inesperados e intensos que acontecem vez ou outra.
Um beijo demorado, a cama, o suor e uns arranhões nas costas dele.
Não foi sexo exatamente. Foi quase. Foi demorado. Foi uma preliminar sem fim. Foi uma irracionalidade descontrolada.
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Léo que observava e desenhava na cabeça cada curva do corpo esguio de Ana, enquanto ela se vestia.
Ana que enquanto colocava a roupa sentia o cheiro da saliva de Léo nos seus seios.
Um olhar de cumplicidade e um abraço de adeus ou até logo.
Um sorriso de Léo ao trancar a porta.
Um suspiro de Ana no elevador.
Um acaso. Acaso do destino, talvez.

8 de novembro de 2010

Nostalgia que me consola. Dos tempos em que eu andava de mochila e bicicleta, frequentava a cantina e o pátio da escola.
Saudade do coração que disparava inocente quando o olhar cruzava despercebido com meu par de olhos verdes prediletos.
Das matinês de domingo de onde a gente saía suado e feliz esperando a segunda-feira chegar.
Os bilhetes trocados com caneta com cheiro de morango e confissões esperançosas.
O imediatismo que a gente vivia, horas em frente ao espelho lamentando o corpo de mulher que ainda não tinha chego (e nunca chegou).
Meus diários cheios de planos de um futuro bom. O meu mundo que cabia quase no meu bairro: a padaria, a locadora, o supermercado, o apartamento dos amigos.
Tardes preguiçosas, manhãs sonolentas. O gosto do cachorro quente com batata palha murcha.
Meu violão.
Não que seja imposível ser feliz quando a gente cresce, só é mais difícil.

10 de agosto de 2010

Isso da troca de olhares, do espasmo, do suor das mãos, do cheiro que fica, dos sorrisos tímidos, das confissões primeiras, da dificuldade de encontrar defeitos, das pernas inquietas, das esperas, das madrugadas, dos abraços quase agressivos, dos beijos quase carnívoros.
Isso das faces que se coram, do pensar pra falar, do sonhar quando ausente, da descoberta.
Isso do querer estar sempre mais perto, do curto espaço entre a despedida e a saudade.
Isso da troca de pedaços de vida, da dúvida, do medo, da ilusão.
Isso do segredo, dos dedos e nucas, do hálito, do amanhecer na partida.
Isso das músicas, das cores, do enlace, da ansiedade que presume desconforto.
Isso da compatibilidade, do inevitável, do jogo, da dose.
Isso do teu eu, do meu nosso.

18 de julho de 2010

vinte e poucos

Me dar conta de que minha casa não é mais a minha casa e de que preciso de um espaço só meu. Onde eu possa molhar toda a pia do banheiro sem ouvir reclamações, onde eu possa colocar os móveis do jeito que que eu quero e se me dar na telha (e o bolso permitir) uma junkie box no meio da sala.
Onde a novela das oito vai ser substituída pelo dvd do Queen. Onde a geladeira estará menos cheia de comida e mais cheia de cerveja. Onde os amigos possam vir e conversar até de madrugada de tudo quanto é assunto proibido.
Onde sim, eu sentirei falta daquela antiga casa da infância mas ficarei feliz pela independência conquistada.
Perceber que o futuro já é presente e que eu preciso correr se não quiser que ele vire um passado sem graça.
Querer grana, não só pra fazer uma viagem ou comprar uma jaqueta da Levis, mas sim pra ter meu espaço oficial no mundo.
Querer reconhecimento profissional e sucesso.
Sentir que o velho molde marido e filhos já não é tão distante e brega quanto há alguns anos atrás (medo!).
Considerar a possibilidade de juntar os trapos com um possível e futuro namorado (será?).
Ter que resolver problemas chatos de adulto e me sentir feliz por conseguir (mesmo que com muita dificuldade).
Querer aprender a cozinhar.
Já saber os "básicos" inglês e espanhol e estar desejando umas aulas de francês.
Se arrepender de não ter se dedicado àquelas aulas de violão de antigamente, mas ainda assim correr atrás do tempo perdido.
Ter saudade da adolescência.
Se desanimar diante do fato de que o metabolismo não é mais o mesmo e de que eu já não posso "encher a cara" de chocolate, pipoca e coca cola sem consequências desagradáveis.
Conversar com pessoas de 17, 18 anos e nunca ter ouvido falar daquela banda que está "bombando".
Ver muitas das minhas convicções questionadas.
Mudar.
E escrever textos de desabafo na noite de um domingo frio.

27 de maio de 2010

Era o abraço desajeitado do reencontro. Era abrir a porta do carro. Era o jantar com vinho italiano. Era colocar a conversa em dia. Era perguntar da família. Era reparar que o cabelo mudou. Era rever qualidades. Era rir das lembranças esquecidas. Era um nhoque com molho bolonhesa. Era ser elogiada. Era procurar outro lugar pra ir. Era parar num bar grã fino. Era beber a última taça do dia. Era o beijo esperado. Era não pagar a conta. Era sair dali e ir pra outro lugar. Era a camiseta emprestada. Era o cheiro que não muda. Era a malícia. Era o quarto. Era um frisson. Era o conhecido desconhecido. Era o descompromisso. Era a ousadia nova. Era o escovar os dentes. Era o adormecer. Era o celular que não foi desligado. Era o silêncio. Era sair na ponta do pé. Era a ligação em seguida.
Não era amor. Era melhor.

26 de abril de 2010

História de qualquer um

Se conheceram numa festa confusa e cheia. De gente, de bebida, de som, de aparência, de cigarro, de risos falsos (e não tão falsos) e de discursos vazios.
Conversaram rapidamente e depois, se perderam no meio da multidão que se misturava numa pista apertada e com uma luz furtacor.
Não foi amor à primeira vista mas ela o achou interessante e gostou dos seus olhos.
Foi atração à primeira vista e ele gostou do sorriso e da bunda dela.
Depois de muitas cervejas, ela acabou numa escada atracada com um antigo caso.
Depois de muitas vodkas, ele acabou no banheiro feminino num beijo a três.
Semanas depois, o destino ou o acaso quis que eles se reencontrassem na saída de uma peça de teatro.
Se olharam, sorriram, comentaram sobre o que tinham visto. Mais três sorrisos depois, telefones trocados.
Conquista, corações disparados, beijos, cinema, mensagens, beijos, restaurante, email, mais beijos,  filme com pipoca, beijos, passeios na Paulista, amassos no elevador, promessas, bilhetes, bar, casa dele, sexo, abraços apertados.
Ela gostava do modo prolixo que ele falava sobre qualquer coisa.
Ele gostava de algo misterioso que ela tinha no olhar.
Conversas, noites abraçados, almoços em família, discussões, bicicletas no parque, praia, jantares com amigos, aniversários, motel, shopping, desabafos, presentes, abraços.
Ela se incomodava com a capacidade dele de ser prolixo sempre.
Ele se incomodava com o ar de mistério que ela mantinha sempre.
Mãos que não se encontram no escuro do cinema, beijos desencaixados, encontros mornos, desentendimentos, telefonemas propositalmente não atendidos, desculpas esfarrapadas, cama vazia, abraços frouxos.
Ela não suportava a complexidade que ele punha em tudo o que fazia.
Ele não  suportava o enigma que ela tinha se tornado.
Distância, brigas, choros, revolta, perguntas, tentativas, frustração, despedidas, silêncios, abraços inexistentes.
Ela procura alguém mais simples.
Ele procura alguém mais acessível.

1 de abril de 2010

Caminho

Observo a vida por uma fresta. Sempre de fora, sempre atrás.


O jogo incessante da vida me interessa mas me assusta,
Me estimula mas me reprime,
Me fascina mas me enlouquece,

Eu, permaneço imóvel.
Tudo me dói, me rasga, me atinge de uma maneira não humana,
Não consigo viver nem sentir na mesma medida que todos,
É sempre demais, ou de menos,
É sempre errado, difícil, incabível, inexplicável
Sempre me escapa,
Sempre me incomoda.

Me identifico com flores, ventos, sons, aromas e paisagens.
Lugares me fazem melhor companhia do que pessoas.
Quando sinto o tato do vento tocar no meu rosto, todos os beijos se escondem,
Quando sinto o aroma da chuva vindo de longe, todos os perfumes se desfazem,
Quando vejo a beleza de uma flor que mesmo frágil, se entrega ao chão no outono, todos os rostos se dissolvem,
Quando ouço o assobio de uma montanha alta, todas as vozes se calam.

Quem dera poder me apaixonar por um rio
E sem mais explicações ou porques
Me atirar na correnteza incerta
E me deixar levar por ele, só ele.

Penso. O que resta, afinal?
De todos os caminhos, os abraços, os beijos, os suores, os desencontros,
De todo o egoísmo, de toda a ira, os choques, os espasmos,
De todos os tombos, os tapas, as chicotadas,
De todo o álcool, o ópio, o pó,
De todo grito, sufoco rouco, tiros,
De todas as impossibilidades,
O que nos resta, afinal?

Impossível viver e ainda assim insisto.
Todos os dias insisto.
Acordo na ânsia de me tornar um pouco mais humana.
E durmo com a certeza de que não sei sentir.
Não sei. Ter um lugar na vida.
Ser cotidiana, prática, rasa, simples, leve,
Não.

Pra mim é sempre fora do esperado.
Não encontro minha humanidade.
Deus? Onde está, Deus?

Por vezes me encontro num abraço apertado de saudade,
Nos olhos enrugados de um velho sábio,
Na espontaneidade de uma menina saltitante,
Me encontro, por breves momentos,
Na liberdade de um cachorro vira-lata,
Num gesto caridoso sem razão,
Num soldado que morre pela pátria,
Numa troca de olhar inesperada.

No espelho, nunca me encontrei.
O espelho me mostra uma desconhecida,
Formas que não me pertencem,
E um rosto pedinte.

Sonhos?
Sim, os tenho.
Será que é isso que me torna humana?
Meus sonhos são sempre sob ou sobre humanos,
Não estão na esfera possível de realização,
São sonhos impertinentes pra um mundo que não olha um pro outro.


Sou sincera me contradizendo a cada minuto,
Sou desagradável e não me suporto,
Pelo puro gosto da contradição
Que mora dentro de mim.

Sou metáfora incompreensível,
Sou um grito forte no meio da noite,
Sou abismo infinito.

Fui educada por situações e não por professores, mães ou pais.
Não há nada que me cause mais paixão do que as pessoas.
Não há nada que me cause mais nojo do que as pessoas.

Quero tudo e tudo me falta,
Ausência
Trepidação
Solidão.

Gosto do gosto salgado da lágrima
E por isso choro

Sentir, sentir, sentir a ponto de não sentir.
Só me contentaria se conseguisse abraçar todo o mundo de uma vez só,
Se conseguisse sentir todos os sentimentos num único momento.

Pra depois me transformar.

9 de dezembro de 2009

de noite de cor azul

vou roubar uma estrela
dessas que se vestem de flor
pra te dar
já até tenho um plano
vou jogar uma corda lá no alto
pra prender em constelação
vou subir devagarinho
pra apreciar a paisagem cor de prata
quando eu chegar
pedirei licença pra dona Lua
não escolherei a estrela mais brilhante não
vou pegar a primeira que sorrir pra mim
dessas que se enfeitam toda pra nos receber
dessas todas saltitantes
com vocação pra ser cadente
ela vai subir no meu ombro
e quando você chegar
vou pedir pra ela se esconder e fazer silêncio
vou te oferecer a estrelinha menina
e quando você sorrir
meu coração vai ficar feliz
que nem raio de sol
em dia que o verão chega de vez

14 de setembro de 2009

dia desses

Eu sentada numa mesa qualquer de espaço público cultural. Ao meu redor, gente entretida em livros, jornais, revistas e conversas. Eu só com o meu livro, numas de ser intelectual. Dia frio, chuvoso e cinza.
De repente, senta alguém na minha mesa. Acordei da minha leitura que estava prestes a virar cochilo e dei de cara com um homem de aspecto assustador. Evidentemente sujo, barba longa, unhas compridas e encardidas. Tinha uma imagem desagradável e até grotesca. Minha primeira reação foi querer me levantar dali, mas por uma mistura de vergonha e pena decidi ficar.
Ele abriu uma sacola plástica e começou a devorar um pão. Reparei que lhe faltavam alguns dentes.
Após observá-lo discretamente por alguns minutos, em um ímpeto de vontade, iniciei uma conversa com o papo clichê do tempo. Respondeu amigavelmente dizendo que do jeito que chovia, São Paulo poderia ficar sem ver água durante uma semana.
Tudo o que eu perguntava, o homem respondia. Sem grandes rodeios, mas com ares de mistério.
Era do interior do Rio de Janeiro, Barra Mansa, morava na rua e a cada cinco ou seis meses, mudava de cidade.
Descreveu lugares por onde tinha passado e as paisagens que tinha visto. Acrescentou que por diversas vezes foi do Rio à São Paulo a pé e vice-versa, dormindo em beira de estrada e comendo o que lhe caía nas mãos.
Lembrou de praças, de casas, de ventos e do Mazaropi, ao citar que tinha passado pela cidade natal do artista.
(Invejei-o por um instante. Uma vida sem horários, obrigações e satisfações. Um alguém que desistiu de vencer e que vive um dia de cada vez. )
Aparentava cinquenta anos e confessou que há vinte e cinco vivia na rua.
O tal homem de pele castigada e olhos expressivos disse que tinha irmãos e sobrinhos que moravam em sua cidade e que chegaram a lhe oferecer ajuda. Não aceitou. "Melhor viver na rua do que virar um incômodo para alguém."
Comentou que a primeira vez que veio a São Paulo, a procura de emprego, era bem jovem. "Quando cheguei aqui eu tinha 20 anos, que nem tu."
Chegou sem dinheiro e moradia e mentiu para a dona de um restaurante coreano na Liberdade dizendo que morava na Zona Norte, o que lhe rendeu um emprego de ajudante geral.
De fato, não mentiu completamente. Até receber o primeiro pagamento, ficou dormindo na rodoviária do Tietê.
"Eu sentava em uma cadeira e cochilava. O guarda me expulsava, mas quando ele saía de perto, eu voltava." Ia e voltava a pé do trabalho para a rodoviária e após alguns dias, os colegas de trabalho começaram a reclamar do seu odor. "Eu fingia que não ouvia."
Quando finalmente recebeu o primeiro salário, procurou uma pensão no centro da cidade e pode tomar um banho e deitar em uma cama. Na sua primeira noite na pensão, apesar de ter colocado o relógio para despertar, dormiu por vinte horas seguidas. "Depois de um mês cochilando na cadeira, eu desmaiei."
Acordou assustado percebendo que tinha perdido o dia de trabalho e foi até o restaurante (mas dessa vez, de metrô). Contou toda a verdade para a patroa, inclusive a "mentira" contada para conseguir o trabalho. Ela compreendeu e pediu que a falta não se repetisse.
"Eu vivia uma vida normal. De dia trabalhava, de noite ia pra pensão e em dia de folga ia pros bailes atrás de moça. Nunca gostei de bebida, mas um cigarrinho eu fumava."
Tudo ia bem, até que começou a ter uns "problemas na cabeça". Tentou manter o trabalho, mas não conseguiu, os tais problemas o impediram.
Tentei por mais de uma vez questioná-lo sobre o que seriam exatamente esses problemas, mas percebi que ou ele não sabia explicar o que ocorreu ou não queria. Talvez um pouco dos dois.
A partir daí, tentou por diversas vezes se manter em empregos, mas sem sucesso.
Foi aí que optou por viver na rua já que a possibilidade de aceitar ajuda dos irmãos já havia sido descartada.
"No começo, o que mais me incomodava nem era a fome, o frio ou a falta de banho. Era a solidão. Sempre fui meio sozinho, só que a gente sempre acaba arranjando um colega ali, outro lá. Mas quando você é morador de rua, ninguém se aproxima não."
"Hoje em dia, eu estou acostumado. Vivo que nem animal, sabe?"
Perguntei se ele tinha o costume de frequentar aquele local. "Ultimamente, vivo aqui. Vejo tudo quanto é filme, exposição e show."
Destacou um filme espanhol que tinha visto no dia anterior e fez uma crítica bem construída justificando que tinha achado o filme ruim por conta dos diálogos e da direção que eram pobres e mal feitos.
Perguntei se ele não pensava em tentar novamente arranjar um emprego, alugar uma pensão. “Foi difícil cair na rua, mas agora é difícil me entregar para a sociedade de novo.” Me disse arqueando as sobrancelhas.
Se despediu dizendo que assistiria um filme dali cinco minutos. Eu sorri e ele se virou. Quando estava prestes a voltar a minha leitura enfadonha, vi que ele se aproximava novamente. “Você é repórter, né?”
“Não sou, não.”
Recebi um sorriso tímido e um “obrigado”.

31 de julho de 2009

querência

É tanto que calo das tardes sem hora
Onde só o instante era o que importava
Sem barreiras, impedimentos, distâncias
É tanto que guardo dos sussuros, suspiros e gemidos roucos
Da noite sem amanhã
É tanto que fica do abraço de alma
Numa tarde no parque em dia de verão
É tanto que rasga da angústia do impossível
De deixar tudo pro destino fazer
É tanto que treme de medo que o tempo te arraste pra longe
E tudo vire lembrança de uma juventude (bem) vivida
É tanto que fica
É nada que passa
É tanto querer
É tanta falta
Tanto (des)encontro, tanta (in)justiça
É tanto choro engasgado
Tanto grito abafado
Tanto riso adiado
É tanta vida que a gente deixa esperando ter hora pra viver
É tanta sobra
É tudo ou nada

5 de maio de 2009

Sou sem fim

Já fui heroína, vilã, religiosa, pagã
Já fui passarinho, já fui menina acuada
Já fui riso, choro, grito solto
Já fui amante e amada
Quem rejeita e quem é rejeitada
Já fui selvagem, pop, carnaval e rock
Quem julga e quem é julgada
Já fui dia de festa, velório
Já fui casamento, já fui libertinagem
Já fui criança, homem, mulher
Já fui equilíbrio, já fui manicômio
Quem prende e quem é presa
Já fui seriedade, já fui bebedeira
Já fui piedade, fui pena
Já fui suicídio, fui nascimento
Quem dá tapa, quem recebe bofetada
Já fui efusiva, já fui recatada
Fui ajuizada, fui da pá virada
Quem aproveita
Quem se sente aproveitada
Já fui gozo, fui susto
Já fui dor, fui amor
Já fui efêmera
Hoje sou tudo
Sou nada
Sou infinita

8 de novembro de 2008

Mala com alça

Tenho no meu quarto duas malinhas antigas.
Na verdade, elas parecem caixotinhos com alças e têm uma porção de selos antigos colados.
Servem para enfeitar.
Mas dentro de uma delas (a menor) eu guardo todas as cartas, bilhetes e cartões que recebi até hoje.
E dentro da outra (a maior) guardo diários que costumava escrever quando estava no ápice de minha adolescência; e recordações de amores antigos.
Pra minha satisfação pessoal, as duas malinhas estão abarrotadas a ponto de- quando eu resolvo abrí-las- levo algum tempo tentando fechá-las novamente.
Hoje eu achei dois cds que um ex namorado gravou pra mim e resolvi que deveria guardá-los lá na malinha maior.
No entanto, antes de abrir a malinha, titubiei.
Eu já sabia que assim que eu a abrisse, uma enxurrada de recordações iam pipocar na minha cabeça.
Resolvi abrir. E o previsto ocorreu.
Eu gosto de recordações e acho prazeroso se sentir um pouco nostálgica.
Mas é impressionante como cada vez que abro alguma das (bem)ditas malinhas começo a relfetir sobre a vida, sobre o amor, sobre o sentido da vida, sobre o sentido do amor.
Aquelas coisas que a gente só pensa num domingo nublado quando acaba a luz.
Remexi a malinha e primeiro reli um dos meus diários.
Ao mesmo tempo em que tive a impressão de que nem tinha sido eu que tinha escrito aquelas coisas, pareceu que meus medos e anseios continuam os mesmos. Talvez eu só os tenha renomeado para que pareçam mais complexos.
(sei que esse texto está com cara de que vai acabar pessimista, mas não...)
Eu vi fotos, li antigas cartas e achei até uma aliança!
E aí?
E aí que depois da minha longa reflexão interna pseudo-melancólica analítica, eu fechei minha malinha contente e com a agradável sensação de que as coisas vão bem como vão.
Aliás, muito bem...

23 de setembro de 2008

Nada de mim

Não me encontro e nem sei quem realmente sou. Creio que meu verdadeiro ser está naquilo que acredito ser o impossível.
Eu me sinto como quem perdeu todos os dentes. Estou inacabada, por dentro e por fora.
Cadê a menina de olhos grandes e pele alva de tempos atrás? Está aqui e acena pra mim.
Sou que nem bicicleta. Se paro, desequilibro. E por isso estou sempre a pedalar e pedalar e pedalar incessantemente. Aliás, se paro, desmorono.
Tenho apenas a vontade profunda de me render, de mergulhar.
Que me levem pra onde quer que seja. Não importa já que não sei que caminho tomar.
Estou muda, atônita, sem ar.
Mas não estou vazia. Sinto-me cheia, repleta. Mas não sei o que faço com isso tudo. Não saber me angustia, mesmo tendo a consciência de que nunca saberei.

É urgente! Urgente minha agonia de ser! Deixem que eu seja.
Só vejo pedaços de mim. Preciso me esvaziar, pra ficar leve e rodopiar pelo ar, sendo levada pelo vento.

Rodando Rodando Rodando

10 de setembro de 2008

pro dia dos teus anos

se tivesse tempo que determinasse
minha espera (in)consciente
vejo teu passo
teu riso desconcertado
e sei de cor teus clichês

a foto em preto e branco
do aeroporto
do porto que ofereceste
e o lençol listrado de azul laranja
os postais na parede e o abajur queimado

e em meio ao que é fugaz
por vezes intenso por vezes fraco
ficas tu
atado por vontade minha


essa distância física
suposta fatalidade
não desanima
porque estás
és

és guarida em proviso
quando já penso que tudo
é vão e oco

mas isso não me detém
vivo penso
mas deixo parte contigo
quando oiço agrado repentino

sequer te digo
porque penso que sabes
(in)conscientemente

se tivesse tempo que determinasse
o dia que minha saudade vai te trazer pelo braço